A gente surge da sombra, 2017.

Exposição individual na Galeria Mercedes Viegas.

Curadoria Fernando Cocchiarale.

O trabalho de Gustavo Speridião atravessa não somente o campo das imagens técnicas (fotografia e vídeo), mas também (e sobretudo) o universo tradicional de dois dos meios mais consagrados pela produção visual dos últimos séculos :  pintura e desenho.

Ainda que esses atravessamentos possam ser interpretados como sintomas de uma disponibilidade multimidiática do artista, tal observação pode ser tomada, inversamente, qual um profícuo caminho para desconstrução  poética e critica da fé modernista nas diferentes possibilidades de uso de cada meio técnico, cuja potência e limites os  distinguem,  sintaticamente,  um dos outros .

Daí talvez o desconforto daqueles que vêem nas pinturas do artista elementos das “linguagens gráficas,” ou a desmaterialização dessa arte pelo uso poético  e conceitual da palavra pintada em quadros pouco “pictóricos”. Seus desenhos também instauram questões semelhantes.  Eles não diferem essencialmente das telas e são, em alguns casos, até mesmo mais pictóricos que algumas delas. Temos, portanto, sinais de que sua poética não favorece enquadramentos discursivos formalistas.

Speridião apropria-se tanto de ícones, quanto de traços emblemáticos da vida social, da prática política, de motes ideológicos e da afetividade fundadora que flui  ininterruptamente nas ruas, com a circulação de pessoas de diferentes classes sociais, crenças e comportamentos.

Cristalizada por meio de traços, gestos, cores que permeiam a fatura visual do trabalho de Gustavo a dinâmica cotidiana da rua, entretanto, pouco contribui para a crítica da histórica estratificação da vida social brasileira.

Tal contradição entre cotidiano e história constitui o cerne poético da obra de Gustavo. Ao ultrapassar (ou superar) o âmbito específico de cada uma das diversas linguagens  em que se dividia o campo convencional das artes visuais ele recupera-o em sua integridade sintático-semântica, assegurada, nas obras, pela  palavra  ou por pequenas locuções  de diversos teores.

Sem hierarquias que não as de suas próprias experiências, como acontece diuturnamente nos fluxos das ruas, Gustavo aciona e constrói, por meio de  motes verbais de forte apelo político ou pela evocação da sutil delicadeza humana, parte do sentido poético (oculto) da experiência humana

 

Fernando Cocchiarale

The Rules of the Game: A conversation about the exhibition IMAGINE BRAZIL

With: Sofia Borges (Artist, São Paulo), Gustavo Speridião (Artist, Rio de Janeiro), Gunnar B. Kvaran (Director of Astrup Fearnley Museet), Hans Ulrich Obrist (Co-Director of Serpentine Galleries).

Moderated by Cheryl Sim (Curator, DHC/ART Foundation for Contemporary Art)

dhc-art.org/imagine-brazil-rulesofthegame/

Revista Arte! Brasileiros, nº 34. Novembro de 2016

http://brasileiros.com.br/2016/06/eu-ele-o-autor/