2016
Punhais, flores, tochas, amor, entre outros nomes para a utopia.
(exposição A LÁGRIMA É SÓ O SUOR DO CÉREBRO. Centro Cultural Hélio Oiticica, Rio de Janeiro.
 
Outro dia disseram a Gustavo que ele parecia ter vindo de outro tempo, do passado. Desconfio que as vezes ele mesmo deve se sentir assim. Gustavo é herdeiro de questões antigas, digamos, com as quais se comprometeu ao percorrer a trilha aberta na arte brasileira em direção ao movimento concreto e ao construtivismo. Nesse percurso, que ele refaz à sua maneira, essas questões se atualizam de forma muito particular.
Nesta exposição a palavra de ordem é conflito: seja do artista com a História da Arte - o apagamento dos fantasmas, como diria Carlos Zilio, seu amigo e mestre - ou do jovem militante que se emociona diante do mundo que também o revolta. Essa divisão simétrica do sujeito é mesmo algo antigo, resquício de um mundo partido, bipolarizado pela Guerra Fria, mas que não deixa de nos assombrar, como os fantasmas da pintura, nos confrontos espalhados por toda a parte, nas guerras que têm lugar no oriente médio, na memória do emblemático 11 de setembro de 2001, que instituiu o fim da História, ou o presente, de onde creio virem as questões que o atormentam.
Essa tensão histórica, digamos, dialética, se faz sentir na contraposição espacial entre as telas Paisagem Russa e Pintura Americana, e em Gráfica 2, 3 e 4, telas-muros feitas com cartazes de agitação colados. Presas em ângulos entre o teto e o chão essas pinturas acionam o conflito verticalidade x horizontalidade. Articulam o gesto canônico de Pablo Picasso, que colou pedaços de jornal em suas telas, ao invés de representá-los, ao ato radical de Robert Raushenberg, que pintou sobre a sua própria cama - o plano flatbed - fazendo da pintura uma superfície semelhante a tampos de mesa ou quadros de aviso, sobre os quais espalhamos coisas, informações de forma caótica ou organizada. Não se trata de um espaço de representação, mas sim de uma superfície em continuidade com o trabalho e a vida, sobre a qual procriamos, concebemos, sonhamos, como diria Leo Steinberg.
Nos vídeos da série Nuvem, registro de intervenções realizadas em 2004 e 2005, vemos a nuvem-cubo pintada sobre as pilastras de concreto do viaduto da Perimetral, que Gustavo avistava da janela de sua casa, no Morro da Conceição. É curioso lembrar que essas pilastras, erguidas com base no mesmo impulso moderno, racionalista, que a nuvem-cubo vem questionar, agora ruíram, devolvendo à nuvem sua natureza fugidia, informe, na sobreposição de projetos de cidade que por fim reiteram esse mesmo pensar.
Na série Estudos superficiais, integrada por cerca de 90 fotografias e um filme, exibido em sessões programadas ao longo desta exposição, o mundo construído pelo ser humano revela sua beleza nas formas abstratas, em texturas vistas de perto, no olhar pelas frestas e intervalos, no pulsar, nos detalhes por onde escapam também seus avessos cheios de contrastes.
Com a intimidade e o descompromisso de quem escreve em caderninhos, Gustavo desenrola metros e metros de tela para dar lugar a uma palavra, a uma frase, traçadas com precisão poética - no limite entre o nada de sentido e o tudo - numa geometria precária e diagonal, que nos desordena. Rasura livros para reescrever outra história da arte, seleciona entre imagens da revista Life seus Retratos de combatentes, tomando como estratégia sua conhecida ironia, que não é nunca cínica, mas sim existencialista até mesmo trágica. Ironia que às vezes soa infantil descamba para o panfletário, mas que ganha consistência quando Gustavo encara corajosamente o desafio de articular referências cuja proximidade não é necessariamente evidente - Malevitch, pichação de protesto, caricatura, Amilcar de Castro, cartazes Russos, Mario Pedrosa, Basquiat, Fernando Pessoa, Trotsky, anarquia. Quando assume a responsabilidade de não fazer da arte mero reflexo, seja do mundo ou de si mesmo, e de tampouco apostar na sua autonomia estética sem um sentido público, como desafiara Mario Pedrosa, pois “a arte não é reflexo de nada; ela deve ser uma força decisiva entre outras forças no contexto cultural-social onde medra”. Esse desafio lançado por Pedrosa, aceito por Gustavo, me parece revestido de uma radical atualidade.
Não fazendo distinção entre a militância partidária e a arte como forma de vida, Gustavo tenta extrair, sem palavras de verdade, um sentido político para os seus dias. Toma o conflito como forma de trabalho a um só tempo objetivo e subjetivo, braçal e intelectual, emocional e racional, afinal, como muito bem definido na frase que dá nome a essa exposição, “A lágrima é só o suor do cérebro”. Desse conflito nasce tudo o que vemos nessa exposição. Se acendem as palavras que nos fazem arder como tochas, que nos cortam como punhais afiados. Caem sobre nós, com generosidade terrível, imagens que nos enchem de esperança e amor, como flores, entre outros nomes para a utopia.
 
Izabela Pucu