ESTUDOS SUPERFICIAIS

 

UM FILME E 93 FOTOGRAFIAS:

Estudos Superficiais [Superficial Studies] 2013

Video digital black and white

51' 23''

Fotosequência [Photosequence] [#00/93] 2013
photo digital black and white
60 x 60 cm

Que Dziga Vertov confessasse haver feito um de seus filmes para cem espectadores, coisa é que admira e consterna. O que não admira, nem provavelmente consternará é se esse filme não tiver os cem espectadores de Vertov, nem cinquenta, nem vinte e, quando muito, doze. Dez? Talvez cinco. Trata-se, na verdade, de uma obra difusa, na qual eu, o autor, se adotei a forma livre de um Chris Marker, ou a “tristeza de vala” de um Fernando Pessoa, não sei se lhe meti algumas rabugens ácidas de geometria. Pode ser. Assim é a humanidade. Só vê geometria. Filmei esses estudos com a câmera da galhofa e a luz da revolta, e não é difícil antever o que poderá sair desse conúbio. A revolta a tudo ilumina, e a galhofa me faz rir às vezes. Acresce que a gente grave não achará no filme seu romance usual, ao passo que a gente frívola achará nele umas aparências de puro romance. Ei-lo aí: fica privado da estima dos graves e do amor dos frívolos, que são as duas colunas máximas da opinião.


Mas eu ainda espero angariar as simpatias da opinião, e o primeiro remédio é fugir a um prólogo explícito e longo. O melhor prólogo é o que contém menos coisas, ou o que as diz de um jeito obscuro e truncado. Conseguintemente, não contarei adiante os processos extraordinários que empreguei na composição desses longos cinquenta e um minutos e vinte e três segundos, trabalhados cá com apenas duas pernas e uma câmera. Isso seria curioso, e extenso, e aliás, proveitosamente desnecessário ao entendimento da obra.  Por isso, a obra em si mesma é tudo: se te agradar, fino espectador, pago-me da tarefa; se te não agradar, pago-te com uma canção e adeus.

Gustavo Speridião

07/03/2013

That Dziga Vertov would confess to making one of his films to as few as one hundred viewers is something that causes wonderment and dismay. Now, it will not cause wonderment and probably will not dismay should this film not have the one hundred Vertov’s viewers, or fifty, or twenty, or, if at all, twelve. Ten? Perhaps five. It is a diffuse work, in which I, the author, if it is so that I adopted the free form of a Chris Marker, or the “ditch sadness” of a Fernando Pessoa, might have shoveled some sharp geometry grumpiness into it. It is possible. That is what humankind is like. All they see is geometry. I have filmed these studies with the camera of joke and the light of revolt, and it is not hard to foresee what may come out of this wedlock. The revolt illuminates it all, and the joke makes me laugh at times. Moreover, the earnest people won’t find in the film its usual romance, whereas the frivolous people will find in it some resemblance of pure romance; that is where it stands: deprived both from the regard of the earnest and from the love of the frivolous, which are the two utmost pillars of opinion.

But I am still hoping to get the sympathy of opinion, and the first medicine to it is to flee from a prologue that is explicit and lengthy. The best prologue is that which holds the fewer things, or that which says those things in an obscure and truncated way. Consequently, I will not tell you ahead the extraordinary processes that I used in the making of these long fifty-one minutes and twenty-three seconds, worked upon over here with as few as two legs and a camera. That would be intriguing and extensive and, besides, usefully unnecessary for the understanding of the work. For this reason, the work in itself is it all: shall it please you, fine viewer, I’ll have paid myself the task; shall it not please you, I’ll pay you with a song and farewell.

 

Gustavo Speridião

03/07/2013

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